Tuesday, March 20, 2007






Nova York. Ziraldo e sua mulher, Wilma, num hotel grã-finíssimo.
De manhã cedo, Ziraldo, devidamente munido do cardápio, foi pedindo seu breakfast à pressurosa telefonista da copa:

– Two cups of tea with lemon, coffe, milk, two three minutes eggs, orange juice, bread, butter, toasts, jelly…

Findo o rol, Ziraldo ouviu a moça afirmar:

– Yes, sir, I remember

Ziraldo comentou com Wilma, desligando o telefone:

– Tudo bem. Ela disse que se lembra de tudo que eu disse.

Passaram-se vinte minutos, meia hora e nada do breakfast. Quarenta e cinco minutos. Ziraldo insiste: e fala em “inglês” com a mesma moça da copa.

– O breakfast está muito atrasado. Já pedi há quase uma hora.

– Yes, sir – disse a moça com convicção. “I remember!”

Ziraldo desligou satisfeito:

– É, ela não esqueceu.

Uma hora e meia e nada da encomenda. Wilma se adiantou:

– Espera, Ziraldo. Deixa que eu falo.

Ligou. Falou com a moça. Desligou, satisfeita. O Ziraldo:

– Afinal o que houve? Ela continuou dizendo que se lembra?

Wilma, com paciência:

– Ela não dizia “I remember”, Ziraldo. Ela queria o “room number”, o número do quarto.
O médico Sergio Carneiro percorria os corredores de um dos hospitais onde trabalhava, numa visita de rotina aos seus doentes. Inadvertidamente, entrou num quarto que não era de nenhum cliente seu.

Um homem, um senhor, arfava sobre a cama, parte do rosto coberto pela máscara de oxigênio, a armação metálica ao lado, sustentando um frasco de soro, ministrava-lhe o líquido na veia.

Ao pé do leito do paciente, um rapaz velava, tristonho e preocupado. Sergio, vendo-o sozinho, tentou um gesto de solidariedade:

– Então, como vão as coisas?

– Mal, muito mal. É meu pai. Enfisema. Excesso de cigarro.

– Pois olha – disse o Sergio –, desde que parei de fumar não consigo nem transar com mulher que fuma. Não agüento nem o cheiro.

O enfisemado, com um gesto lento, difícil, afastou um pouco a máscara, liberando a boca e declarou, a voz macerada, roufenha, quase sem fôlego:

– Então, o senhor deve estar comendo muito pouca gente...

Dito isso, teve um estertor e deu o último suspiro.
Dizem que essa história aconteceu com o jornalista recifense Edmundo Celso, um destacado quadro comunista do velho Partidão, apesar de circular em Manaus uma história semelhante, atribuída ao também jornalista Farias de Carvalho, outro destacado quadro do Partidão. Vamos à versão dos pernambucanos:

Nos anos 60, quando a repressão do governo recrudesceu, o Coronel Alvino, chefe das brigadas anti-subversivas pernambucanas, espécie de extintas volantes sertanejas, prendeu todos os companheiros do PCB com toda ferocidade. Menos Edmundo Celso, que ficou no maior desaponto com a discriminação.

Rejeitado e frustradíssimo, deu um telefonema anônimo para o coronel denunciando-se com voz sussurrada:

– Aqui quem fala é um patriota. O pior comunista de todos está solto, o mais perigoso, o mais destemido. Ele toca terror e resolve tudo na bala. Pra prender ele, tem que ter muito cuidado. Chama-se Edmundo Celso.

O coronel:

– O quê? O Edmundo Celso? Aquilo é um afofa-bosta! Não passa disso, um afofa-bosta!

Edmundo Celso, desnorteado, denunciou-se para valer:

– Afofa-bosta é a puta que pariu! Ouviu, seu filho duma égua? É a tua mãe!

O socialite Celmar Padilha discutia com o maître a qualidade do faisão que lhe foi servido e que ele, gastrônomo e grande conhecedor dos segredos e mistérios de tal caça, não aprovou.

Na mesa contígua, o saudoso escritor Carlinhos de Oliveira comentou com desdém:

– Faisão para mim é uma galinha caipira que tomou banho de loja e herdou título do Country Club...
Havia um jornalista no diário de Pernambuco, um certo Irineu, que só chegou a repórter por interferência de um deputado seu amigo, pois era muito burro.

Certa vez, chegou a Recife uma jornalista belga de certa importância e mandaram o Irineu entrevistá-la.

Dia seguinte, escapou o seguinte título na matéria sobre a moça: “Jornalista belgicana visita o Recife”

Em vários pontos do edifício do jornal afixaram os seguintes versinhos:

Jornalista belgicana
No mundo nunca se viu,
Irineu, burro e sacana,
Vá pra puta que o pariu!
Carlos Lacerda, o grande tribuno, na ocasião em que dirigia seu jornal, Tribuna da Imprensa, do Rio, não tolerava duas expressões usadas à exaustão nas redações brasileiras, principalmente na hora da preguiça: “via de regra” e “por outro lado”. Lacerda ficava furioso:

– Via de regra pra mim é boceta – vociferava – e por outro lado é cu!
Essa história se passou com uma conhecida atriz da rede Globo, cujo nome vou omitir para evitar processos indesejáveis.

Sentada no bidê, o esguicho do chuveirinho aberto inteiro, furiosa com o rompimento do noivado por absoluta culpa sua, gritava;

– Bebe, desgraçada, bebe! Já que tu não podes mais comer, bebe!
O jornalista Paulo Branco, recém-chegado de sua terra natal, Vassouras, anos idos, para se estabelecer de vez no Rio de Janeiro, conheceu todas as intempéries que assolam um iniciante e, acima de todas elas, a mais letal: a pindaíba, a quebradeira, a falta total de numerário.

Logo que chegou, escolheu para abastecer-se um restaurante bem modesto e, consultando o cardápio pela lista da direita, a do preço, comandou um caldo verde. O garçom berrou para a cozinha:

– Salta um atestado!

Curioso, o Paulo quis saber a razão daquele “atestado”.

– De pobreza – esclareceu o homem.

Wednesday, February 14, 2007


Chico Buarque, no bar Antonio’s, no Rio, finzim da tarde, de namoro firme com o escocês nas rochas, quando adentra o recinto – sob o silencioso delírio da torcida local – o jogador Marinho Chagas, ex-Botafogo, então defendendo o Fluminense, time de Chico, e dispara:

– Chico Buarque? Canta um troço teu aí pra gente curtir.

Chico, em cima:

– Só se você fizer duzentas embaixadinhas pra gente ver.

Marinho foi à cozinha, trouxe uma laranja e fez as duzentas embaixadinhas.

O bardo teve que se virar numa viola para pagar a dívida.

Os filhos da médica Wilma Ulhoa, ainda pequenos, passaram a manhã brincando com um gato vira-lata. Dia seguinte o tal gato aparece morto sem causa aparente (tiro, pedrada, atropelo). Suspeita número um: raiva.

Todo mundo convocado pra injeção, incluindo a babá, que quis saber que história era essa de vacina anti-rábica. Informada do perigo e que as aplicações (40 doses) eram na barriga, não gostou muito.

Às quatro horas da manhã, a casa ainda no fundo do sono, a babá bate na porta da patroa, com sinais evidentes de ter passado a noite em claro:

– D. Wilma, eu pensei melhor. Prefiro morrer.

Anos sessenta, Brasília. A cidade nasciturna ainda convalescia do parto, do penoso trabalho de parto.

O jornalista Mauritônio Meira, um dos habitantes pioneiros, recebe um telefonema do Oscar Niemeyer:

– Vamos até o Catetinho? – propõe ele a Mauritônio. “Estou de carro. Onde te pego?”

– Na superquadra 105 – responde Mauritônio.

Oscar fez um silêncio e, para divertido espanto do jornalista, declarou:

– Mauritônio, olha, me espera no Eixo Monumental. Não entendo porra nenhuma de Brasília.

O inesquecível Hugo Bidê, para um casal que foi visitá-lo, participando casamento e casa nova em Ipanema:

– Vocês se incomodam se eu escrever o endereço a lápis?


Jogo entre aspirantes, durante uma preliminar de Palmeiras e Corinthinas, no Parque São Jorge.

O treinador do time alvi-negro, correndo pela lateral do gramado, não pára de gritar com o craque do time:

– Vai, Maloca, vai, Maloca! Abre para a esquerda... Cuidado com o ladrão, Maloca, cuidado com o ladrão!


De repente, um senhor já de cabelos grisalhos salta da pequena arquibancada e invade o campo em altos brados:

– Aqui ninguém vai chamar meu filho de Maloca ou de qualquer outro apelido de merda. O nome do garoto é Rivelino! Ri-ve-li-no!


Um jornalista meio desavisado emendou:

– Mas este nome é muito complicado. Isso não é nome de craque, isso é nome de galã de filme mexicano de segunda categoria...

O velho Nicola Rivelino mais que depressa emendou:

– Preste atenção nele e trate logo de decorar o nome, porque um dia você vai ter este nome na ponta da língua e muito bem decorado.

E o Garoto do Parque entraria para a história do futebol com o glorioso nome de Rivelino.

O Cristo adoeceu na última hora e o único substituto, para não arruinar a encenação da Paixão de Cristo no circo Garcia, era o palhaço Taramela, que já estava maquiado.

Emocionadíssimo, foi removendo o nariz postiço, a careca, as tintas e, transfigurado, viver o papel mais importante da sua vida apagada.

No exato momento que entra em cena, escoltado por dois centuriões romanos, para ser inquirido por Pôncio Pilatos, um moleque grita das arquibancadas:

– Eu conheço aquele cara, rapaz! Aquele cara é o palhaço!

Taramela, desnorteado, arrepanhou as partes, sacudiu e berrou de volta:

– Taqui o palhaço! Taqui o palhaço!

O travesti Valéria, numa temporada artística no Egito, teve que ser operado(a) às pressas. Apendicite aguda.

Na enfermaria destinada às mulheres, durante um asseio na toilette, uma enfermeira, estranhando, chamou imediatamente os médicos:

– Afinal – perguntaram – o que a senhora é?

Valéria, com brejeirice, fazendo bico:

– Eu sou me-ni-ni-nho.

Friday, February 09, 2007


Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu em Recife (PE), no ano de 1897, e faleceu em Olinda, naquele estado, em 1978. Antes mesmo de se formar em engenharia civil, em 1930, colaborava com a Revista do Norte, daquela cidade.

Manuel Bandeira, em 1946, organizou a Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, da qual constaram oito poemas de Cardozo. Seu primeiro livro, Poemas, foi publicado em 1947 por iniciativa de João Cabral de Melo Neto.

Calculista do arquiteto Oscar Niemeyer, participou da construção de Brasília, além de outras obras de grande porte no país, sem que isso o afastasse da literatura, onde continuou atuando como tradutor e crítico de arte.

Um dia, numa segunda-feira, de manhã cedo, Joaquim Cardozo recebeu um projeto do Oscar Niemeyer para calcular.

Examinou as plantas superficialmente, esclareceu-se de uns detalhes, perguntou:

– O Oscar está com pressa?

Informado que sim, consulta o relógio, comenta:

– Bom, segunda-feira, a semana está praticamente perdida...

Paulo Affonso de Carvalho – nobre, arquiteto e antiquário – falando do casamento da neta da Baronesa de Bonfim:

– Um deslumbramento! A noiva estava com o véu da antiga baronesa e a tiara da Marquesa de Santos. O vestido da mais pura seda indiana, de um corte extraordinário, enfeitou-se com um arranjo equilibradíssimo de orquídeas do Roberto Burle Marx. No bouquet, um rosário de contas de cristal, presente de D. Pedro, o padrinho.

E, para terminar o encantamento, sobre o noivo:

– O noivo? Um transeunte.

O senador Napoleão de Alencastro Guimarães era diretor da Central do Brasil. De uma janela em frente ao cais do porto viu um vagão, estacionado num desvio, com mostras visíveis de abandono. Anotou o número e de lá mesmo telefonou para o Departamento de Patrimônio:

– Eu quero falar com o chefe.

– Quem deseja falar com ele?

– É Napoleão de Alencastro Guimarães, diretor da Central.

A voz perdeu a cor quando pediu um minutinho, doutor.

– Quero que o senhor me informe onde está o vagão de número tal, tal, assim, assim.

– Um instante só, doutor

Três minutos depois, a voz repete o número para conferir. É este mesmo, confere.

– Está no desvio de recuperação, em Brumadinho, Minas Gerais, para reparos de urgência.

O que você faria no lugar dele? Exatamente o que o senador fez.

O professor e matemático Júlio César de Mello e Souza – o nosso Malba Tahan – ia de trem para Minas Gerais e acompanhava, distraído, as curvas dos fios de telégrafo que passam pelas janelas. A curva, a mesma que as redes de dormir desenham, chama-se catenária.

O professor comenta com o companheiro de viagem, ao lado:

– Temos lindas catenárias por aqui!

O mineiro acrescenta:

– Tem muito nhambu, também.


Quando o seráfico Embaixador Mário Dias Costa – que foi o autor intelectual do renascimento da Música Popular Brasileira na década de sessenta – arranjou o Carnegie Hall, em Nova York, para um concerto dos músicos brasileiros, João Gilberto não podia faltar, claro.

Na hora de sua apresentação, frente a onze microfones que transmitiam o espetáculo de costa a costa dos Estados Unidos, houve uma falha técnica e ouviu-se a microfonia. Para quem não sabe: microfonia é quando o som dá um grito incômodo, desagradabilíssimo.

João Gilberto, que tem horror a essas coisa, virou-se para o baterista Milton Banana, junto dele:

– Milton, igual lá...

Algumas pessoas, pensando que fosse o anúncio do número do João, aplaudiram.

E ele, diante dos onze microfones ligados:

– A mesma burrice...

Do artista plástico Caio Mourão, um dos fundadores da Banda de Ipanema, ao lado dos já falecidos Ferdy Carneiro e Albino Pinheiro, justificando assim por que voltou a freqüentar a Banda de Ipanema depois de criticá-la duramente pelo número de drag queens, entre outras coisas, que, segundo ele, a estavam descaracterizando:

– Prefiro encontrar amigos na Banda do que no velório.

Zequinha Estelita num dia de arruaça, cabeça cheia, pro Manolo, dono do Antonio’s:

– Você serve álcool e quer comportamento de casa de chá?

Em Ubari, perto de Ubá, um sujeito granfiníssimo, montando uma mula linda, aproxima-se de Ferdy Carneiro.

Mas era grã-fino caipira, paletó de couro tacheado, chapéu de aba dura, óculos Ray-Ban, botas de sanfona.

Ferdy disse que a mula tinha uma pele de Rose di Primo e propôs imediatamente a compra.

– Dou duzentos contos no animal!

O sujeito, sem responder, virou-se meio de lado e enquanto acariciava a anca da mula ia dizendo baixinho, sensual, comovido:

– Renata...Renatinha.... Minha Renatinha...

Ferdy corrigiu correndo.

– O senhor me desculpe! Eu não sabia que se tratava de sua senhora.


Sérgio Noronha entrevistava candidatos ao programa “Oito ou Oitocentos”, da TV Globo. Como se sabe, tratava-se de um jogo de perguntas e respostas sobre um determinado assunto, valendo dinheiro. Se o argüido acertasse todas, levava uma boa baba para casa.

Para evitar que se apresentassem pessoas que só queriam aparecer no vídeo por instantes, fazia-se uma seleção prévia e Sérgio tomando nota.

Um dia, um sujeito se apresenta:

– Nome?

– Fulano de tal.

– Vai responder sobre que assunto?

– Tudo.

– Como, tudo?

O candidato, impassível:

– Exatamente. Tudo! Das alturas do céu, tudo que se passa sobre a Terra, às profundezas do mar.

E arrematou, para desespero do jornalista:

– Quem está contra mim está contra Deus!

Nascido em Pedra Branca, no Ceará, e morto em 1948, o poeta Leonardo Mota era um sujeito engraçadíssimo e tremendo bom caráter.

Num momento de pouquíssimo dinheiro (pindaíba braba) num hotel em Belo Horizonte, cujo dono chamava-se Maleta e vivia o acossando, o poeta pôs-se a meditar ao longo da noite.

Na manhã seguinte, endividado até a alma e já sem desculpa pelo atraso do aluguel, deu ao senhorio o seguinte poema:

Meu caro amigo Maleta

Tenha pena do poeta

Eu vejo a coisa tão preta

Que não posso ser profeta

Posso-lá dizer-lhe a data

Em que terei a dita

De pagar esta maldita

Conta que tanto me mata?

Não sou sujeito de fita

E por isso evito a rata

De dizer-lhe a data exata

Em que esta conta se quita

A paciência se esgota

Imagine a minha luta

Que vida filha da puta

Saudações, Leonardo Mota

Ganhou mais um mês de prazo para saldar o aluguel.

Ronald Wallace du Chevalier, Roniquito, era a arma secreta de Ipaneblon, o míssil terra-terra. Jackill & Hide.

Em dia de concerto importantíssimo, foi ao camarim do pianista Arthur Moreira Lima, no Teatro Municipal do Rio, levando um amigo.

Depois dos beijos e abraços, foi ocupar seu lugar na platéia, mas avisou antes:

– Olha aí, ô cara. Eu trouxe este sujeito só para te conhecer e te ouvir. Não vá me fazer passar vergonha!

Monsenhor Cançado depositou os olhos na leitoa defunta, corada e mordendo duas azeitonas. Nos frangos, assado um, ensopado o outro. No empadão de galinha caipira. E correu-lhe na espinha profunda o arrepio dos iluminados e a fé fortaleceu-se.

Mal agradeceu ao Senhor – pelo tempo da persignação, jamais pelo teor religioso – cravou o guardanapo na gola da batina e meteu boca à obra.

Nisso, o padre local detonou:

– Mas Monsenhor... Estamos na Quaresma e hoje é sexta-feira. Vossa Eminência vai comer carne?!

O pastor de almas levantou-se, fez as mãos postas, concentrou-se numa surda oração em latim, traçou no ar a figura de uma cruz sobre a leitoa e demais companheiros de feliz infortúnio e declarou:

– Te batizo dourado, linguado e garoupa!

Não deixou migalha.

Aí por volta dos anos 40 e 50, a casa do escritor Aníbal Machado, na Visconde de Piarajá, em Ipanema, era tradicionalmente aberta aos amigos, convidados e mesmos penetras, das manhãs de sábado ao entardecer de domingo. Todo mundo compartilhava de sua hospitalidade, de Sartre e Camus aos vagabundos da esquina.

Era possível encontrar nesses saraus, no mesmo dia, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria, Darel, Goeldi, Marcelo Grassman, Paulo César Saraceni, Paulo Autran, Tônia Carrero, Thiago de Mello, Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, pintores, escultores, arquitetos, atores, poetas, cronistas e talvez Deus pessoalmente, de papo ferrado com o capeta. Porque a casa recendia concórdia, amizade, trégua e paixões várias.

Evidentemente, nesse bando misturado apareciam indesejáveis e tinha sempre um que particularmente desequilibrava a agitada quietude da casa com porres avassaladores. Aníbal o suportava com a mais santa das paciências, não reclamava nunca.

Um dia, o inconveniente aparece numa manhã de segunda-feira na casa do doce escritor antropofágico. Estava sóbrio e preocupado:

– Aníbal – disse ele . “Me contaram que houve algum problema comigo aqui, no sábado: que eu tomei um porre federal e fiz alguma coisa errada. Espero não ter te ofendido.”

Aníbal, a voz calma, moderado, pretendeu consolar o visitante:

– Não, fulano – a voz esticada – de jeito nenhum. Exagero das pessoas. Você apenas evacuou no meio da sala.

Era mentira do Aníbal. Mentira estratégica que afastou o inoportuno para sempre.



Doum Romão, o músico. Ou Dom Um Romão, para os menos íntimos. Descrevo para quem não o conhece: pele cor-de-tâmara, cara de árabe, cavanhaque, cabelo cacheado, cara de malandro, sorriso eterno: tudo isso encimando um corpo seco e musculoso, moldado pelos nervos de baterista.

Na juventude, era um cabra folgado, metido a capoeira, encarava qualquer briga de rua. Carioca da Zona Norte, com livre trânsito na Zona Sul, um dos inventores do Beco das Garrafas.

Uma ocasião, o baterista descia com outros companheiros do Brasil 66 – antecessor do Brasil 88, de Sérgio Mendes, onde ele tocava – pelo elevador do Hotel Hilton, de Tóquio.

Num dos andares entra um japonês baixinho, metido num quimono de seda cinzenta, ambos – japonês e roupa – seriíssimos.

Sabe como é brasileiro em bando fora do Brasil: parte direto para o deboche. O Doum não deixou por menos, começou a rir e a falar em português:

– Olha só o japona, uns e outros! Parece madame nissei de São Paulo, endomingada para Festival do Tomate Shintô. É do tipo que se desce corrimão pelada faz brrrr...

A brincadeira foi por aí, durou até o térreo.

O japonês saiu do elevador, deu uns quatro passos, voltou-se, plantou-se nas duas pernas, cerrou os punhos, olhou Doum no fundo da retina e perguntou, glacial:

– Are you looking for trouble?

Doum, amarelo-marinho, num inglês aos farrapos, só faltou ajoelhar.

Arquiteto, navegante e voador, Amaro Machado comprou um veleiro, um Arpége, e estava com problema de nome, até que decidiu:

– Vai se chamar Rosa dos Ventos.

O também arquiteto Marcos de Vasconcellos ponderou:

– Tá ficando maluco, Machadão? Esse nome é tão óbvio que devem ter pelo Brasil afora milhares de Rosas dos Ventos.

Ele teimou:

– Pois vou botar Rosa dos Ventos

– Vai quebrar a cara. A Capitania dos Portos vai até rir na sua cara: “Rosa dos Ventos? Quá, quá, quá, inventa outra...”

– Rosa dos Ventos

E foi à Capitania registrar o barco.

Quando voltou, a cara seriíssima, trazia um embrulho. Eram as letras de aço para fixar na popa. Ficou Rosa dos Ventos mesmo.

Todo mundo que pensou no nome, raciocinava feito o arquiteto Marcos de Vasconcellos e desistia na mesma hora.

O poeta Paulo Mendes Campos tinha mamado umas, outras e mais umas e, claro, o pé ficou meio redondo. O equilíbrio idem.

Quando se levantou da mesa do bar, perdeu o prumo, o rumo, a reta, e meteu a mão na sopa do vizinho.

Sopa de cebola, fervendo a 400 graus Fahrenheit.

Não satisfeito em ter derrubado a terrina, o poeta meteu a mão na cara do dono do caldo fervente com um álibi perfeito:

– Pombas! Afinal de contas ele me queimou primeiro!...

A designer Ivone Mascarenhas procurou um oftalmologista para fazer uma oftalmoscopia, pois para isso procuram-se os oftalmologistas.

Exame pelo meio, o olho arregalado à força, com aquela luz de fogo fátuo e incômoda, a moça ouviu, horrorizada, o médico murmurar:

– Socorro!

Sentiu um vazio, um desmaio. A doença que já era séria, devia ter ficado gravíssima, ou o facultativo enlouquecera logo na sua vez.

A voz aumentando, o horror idem.

– Socorro!

Ivone tentou se desvencilhar de jeito a não espicaçar a paranóia do homem. Ele:

– SOCORRO!

Ivone ia perder os sentidos, quando entra na sala a enfermeira, calmíssima:

– Pois não, doutor.

– Socorro, me traga colírio e a ficha de D. Ivone.

Friday, February 02, 2007


Quando ainda não era Thomas, Daniela, filha de Ziraldo, telefonou da Suíça:

– Pai, você ainda tem aquela caixa de lápis de cor Caran D’Ache?

Ziraldo estranhou: por que cargas d’água Daniela haveria de querer saber de lápis de cor e a preço de satélite, siô?

– Vai buscar.

Ziraldo pensou que fosse para especificar o modelo dos excelentes lápis suíços. Presente, com certeza.

– Está aqui comigo Daniela. O que você quer?

– Era só pra você olhar a tampa. Estou vendo a mesma coisa agora na janela do meu quarto.

Na gravura, os lambidos campos do Vale do Zermatt, o céu transparente, a neve alvíssima coroando a Great Matterhorn.

Na janela carioca do Ziraldo, um espigão do Sérgio Dourado onde antes se via o Redentor.

Manoel Ribeiro Romar, o tradicional Manolo, dono do lendário Antonio’s, o mais inefável dos bares cariocas de antigamente, recebeu o título de cidadão carioca, concedido pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

A casa, pequena, regurgitou com a notícia e invadiu, com mesas e cadeiras, a avenida defronte, a Bartolomeu Mitre.

O jornalista e vascaíno roxo Sérgio Cabral, vitorioso autor da emenda constitucional que institucionalizou o Manolo, conversava, meio ao alegre tumulto, com o arquiteto Paulo Casé e estranhava.

– Mas eu não conheço nem a metade das pessoas que vieram comemorar o título do Manolo.

Casé, grave, explicou:

– São os alcoólicos anônimos.

Horário de telejornalismo na extinta TV Tupi. A bossa do programa era, após a notícia, lida gravemente pelo locutor, focalizarem o jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), que a comentava.

Um dia, após o relatório da meteorologia anunciando templo nublado sem chuvas, o Sérgio completou:

– Dia cinzento, sem graça. Nem chove, nem sai de cima.

Miguel Gustavo e Billy Blanco estavam juntos em São aulo e, numa manhã, foram andar ao léu, para cavaquear e achar graça na vida.

De repente, no sentido contrário ao que caminhavam, repararam um casal que se aproximava.

Ela, metro e setenta de carne fresca, linda, elegantíssima, imperial, radiosa, de braço com um tipo ordinário, cinzento, magro, miúdo, um brevê contra a luxúria.

Comentário de Miguel Gustavo:

– Olha lá. Um vira-lata com um filé mignon na boca.

Billy correu na frente e fez o samba.

O cantor Francisco Carlos, o popular El Broto dos tempos eufóricos da Rádio Nacional, vinha de São Paulo voando por uma daquelas antigas e desesperadoras pontes-aéreas pré-jato e tinha, ilustre passageiro, um belo tipo faceiro ao seu lado: a cantora francesa simone Clodet, então em alta na bolsa discográfica mundial.

Como encaravam um bom temporal, o avião jogando, Francisco Carlos, aproveitando-se do desconforto, puxou papo com a moça:

– Do you know?... The...

Separado apenas pelo corredor do escritor Fernando Sabino, o cantor pediu-lhe socorro.

– Ô Fernando, como é que se fala avião em inglês?

– Plane.

– Obrigado – e novamente para a vizinha. “The plane is...”

Empacou e recorreu:

– Como é que se fala sacudindo, Fernando?

– Trembling.

– The plane is trembling because the...

Fernando antecipando-se ao “ar quente”:

– Warm air. Mas ô Chico, a moça é francesa, pombas. Por que você não conversa na língua dela?

Resposta de El Broto

– É que francês eu não sei falar.


Nertan Macedo, poeta e jornalista cearense, especialista, entre outras modalidades, em cangaço e nos seus anti-heróis, examinava, na redação da Revista Nacional, as fotos tiradas no dia do lançamento do livro de Marcelo Suppa Meira (Algo Amarelo à Minha Esquerda), quando deparou com o retrato de Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, Secretário de Trabalho e Habitação do Rio de Janeiro e ex-presidente do Sindicato de Jornalistas.

Imediatamente separou a fotografia das demais e ficou contemplando com enlevo a doce figura de Caó. Até que disse:

– Eu gostaria tanto que o Figueiredo revogasse a Lei Áurea ...

E explicou:

– Eu tinha muita vontade de compra esse pretinho.

Impulsionada por um grupo de entusiastas a partir dos anos vinte, a transmissão radiofônica, o broadcasting, unia o país com a mesma força das atuais networks de televisão.

Não eram poucos os empresários que acreditaram e investiram na primeira infância do rádio e foram bem recompensados, entre outros: Roquete Pinto, Antenor Mayrink Veiga, Henrique Morize, Renato Araújo, Ademar Casé, os irmãos Manes e Arnaldo Moreira Pinto, este dono da Rádio Clube Pernambuco (PRA-8), mais tarde vendida a Assis Chateaubriand.

Era de tal forma importante o rádio no Brasil que quando morreu Moreira Pinto houve tamanha comoção no estado que seu enterro teve pompas de féretro federal, e tantos eram os candidatos a orador de beira de cova que as famílias e os amigos, para evitar tumulto, decidiram que só discursariam três pessoas: um deputado, representando o povo, Tavare Maciel, funcionário da casa, e Agamenon Magalhães, governador de Pernambuco.

Acontece que entre os mais profundamente feridos com a morte do chefe estava Chico Holanda, espécie de factótum da Rádio Clube, de quem diziam ser fundador da Pitubrás, em razão do seu apego à garrafa e ainda mais naquela hora de dor, quando o desconsolo se abateu sobre ele com o falecimento de Moreira Pinto.

Tão logo o governador encerrou sua fala e sem que pudessem impedi-lo, Chico Holanda voou para perto do caixão e, desatado em pranto, desatou sua despedida.

– Arnaldo – soluçava alto –, você foi meu pai, minha mãe, meu irmão.

E enveredou por uma lista interminável de parentescos e contraparentescos metafóricos, que acabou arrematando com grandiloqüência operística, braços erguidos:

– Você, Arnaldo, foi minha VIDA!

Como o Chico abriu demais a boca para berrar a última palavra, voou-lhe a dentadura, que caiu dentro do caixão, sumindo por entre as flores.

Diante do imprevisto, o orador continuou a arenga enquanto tateava o defunto á cata da cremalheira. E foi se alongando, alongando, já se ciciava de aflição e cutucavam o Chico, que prosseguia na busca vã e no palavratório torrencial.

Num dado momento, querendo terminar o martírio do morto e dos vivos, um amigo da família, Aldemar Paiva, agarrou o Demóstenes sertanejo e o foi arrastando para longe do caixão.

Chico Holanda, em desespero, vendo baixarem a urna funerária, assinou a oração fúnebre com a seguinte frase, proferida com voz enforcada e boca murcha:

– Vai, Arnaldo! Vai e leva meu último sorriso!

Paulinho Sabóia estava assistindo à construção do seu saveiro que é, como se sabe, um barco artesanal, laboriosamente feito de madeira pelos mestres carpinteiros.

Ao seu lado, igualmente chupetilhando o misterioso espírito das Escócias, Fernando Haddock Lobo e ambos ocupados com um problema aparentemente insolúvel: dar nome ao barco.

Já tinham uma lista de centenas de sugestões, próprias e dos amigos. De repente, deu um estalo no Fernando:

– O pessoal que vai navegar aí é chegado a uma birita, não é?

– É – respondeu Paulinho. “E muito”.

– O barco é todo de madeira, não é?

– Menos os panos.

– Flutua, não flutua?

– Espera-se.

– Então. Taí o nome: Pau D’Água.

Ficou batizado, claro, e comemorou-se devidamente com porre de juntar menino.

Irmão do senador Milton Cabral, Toinho Cabral é proprietário de um vulcão político em Filipéia, ou melhor, em Nossa Senhora das Neves, ou ainda melhor, em João Pessoa: o Hotel Tropicana, onde fraternalmente se fundem, num só magma, todos os desígnios partidários do Real Estado da Paraíba.

Certa ocasião, no Rio, mais particularmente no Regine’s, Toinho viu-se ameaçado de morte, no mínimo de surra braba, por um candidato a corno que viu nele olhares licenciosos paar a mulher que o acompanhava.

Toinho Cabral não chega a ser um valetudinário, mas, como bom nordestino, não tem dois metros e cinqüenta de altura e, diante da enormidade do litigante, subiu numa mesa e desatou o berro:

– Quem for do Norte que me acuda! É o Norte contra o Sul!

Levantou-se nortista de todo lado e, como reza a escrita, mais uma vez as tropas do general Grant liquidaram os exércitos confederados de Lee.


O eterno vagabundo Charles Chaplin, já no auge da carreira, popularíssimo no mundo inteiro, estava reunido com amigos em casa e, para espanto geral, sentou-se ao piano e cantou maravilhosamente bem a ária “O Dolci Baccio” da Tosca, de Puccini, interpretando um Cavaradossi perfeito.

Os visitantes ficaram estupefatos, pois ignoravam que Carlitos fosse um afinadíssimo tenor.

– Não sou mesmo – disse ele. “Só estou imitando Caruso.”

Conselho técnico do urbanista Carlos Eduardo Junqueira:

Namorada ideal é aquela comerciaria de Padre Miguel que, no máximo, reivindica um tratamento de dentes para a mãe.

A partir desta verdade singela e cínica, um famoso industrial carioca, do ramo têxtil, engraçou-se por uma secretariazinha de segundo escalão (digamos terceiro) de sua fábrica e passou a dedicar-lhe tarefas suaves e olhares pidões, visando, evidentemente, favores especiais extratrabalhistas.

Resumindo: depois de algumas poucas semanas de miçangas, mimos, regalos, chopes e picanhas de subúrbio, a ex-tecelã consentiu deixar-se tosquiar. Depois da trama, a urdidura.

Naqueles tempos pré-olímpicos, usavam-se garçonnieres, tugúrios do amor, velhacoutos de luxúria, porque hotel de encontros o mínimo que ofereciam era olho-mágico contra.

Para a moça fabril, acostumada a revoada de patos de lucas cravados na parede da varandinha de sua casa de vila, o matadouro do patrão era o Taj Mahal e, imaginando tais deslumbramentos, vestiu a melhor roupinha, caprichou extrato, meteu-se nos bissextos sapatinhos de verniz aqueles que o Miéle chama de pé-de-geladeira) e qual lançadeira de tear, lançou-se.

O igualmente fabril e febril proponente não era homem de prolegômenos, de forma que, tão logo trancou a porta do apartamento, foi se desencasacando, desengravatando, descamisando, dessapatando – em suma: como bom profissional, foi tirando os panos.

A mocinha, pobrezinha, sentadinha na beirinha da cama, tremelicante, nervosa, bolsinha nos joelhos, balbuciou uma súplica:

– Seu Fulaninho...

– Que é, minha filha? – perguntou, tirando o cinto.

– Eu só queria um favor...

– Qual é, minha filha? – e desabotoava a braguilha.

– Eu só peço que o senhor não conte pra ninguém.

Seu Fulaninho estancou, ficou assim parado por uns segundos, os olhos no teto. Depois, lentamente, reabotoou-se, reflexivo. Por fim, vestindo a camisa, concluiu:

– Então não quero. O bom é contar...

A mãe do pianista Artur Moreira Lima telefonou para a Farmácia Palace:

– Os senhores aplicam injeção a domicílio?

Aplicavam.

Precavida, perguntou.

– Quem aplica é homem ou mulher?

– Homem, minha senhora – responderam –, mas com todo respeito.

Jornalista no Recife, Edmundo Celso era um comunista clássico. Criatura boníssima, paciente e camarada nos sentidos ambos, político e emocional. Adotou as regras comunistas por entende-las humanitárias, até mesmo evangélicas – lato sensu, lato senso. Era um comunista aplicado, fervoroso, consciente, convicto e convincente.

Lá um dia, andando à malta, o poeta Mauro Mota resolve dar uma entradinha purificadora na Igreja de Santo Antônio na pracinha do Diário de Pernambuco.

Num dos bancos, meio à penumbra que as verdadeiras igrejas proporcionam aos fiéis, mesmo ao sol de meio-dia, ajoelhado, contrito, as mãos postas, Edmundo Celso rezava com unção.

Mauro Mota lavrou o flagrante:

– Rezando, hein, seu comunista de fancaria?

– Mas pela alma de Stálin, seu merda! – rebateu o ajoelhado.

Num fim de semana em Cabo Frio, a estilista Suely Moreira Leite, fustigada pelos mais famélicos mosquitos do mundo, foi à farmácia comprar um repelente padrão NASA que a fizesse e à família viver e gozar a vida em paz. No Rio de Janeiro, o frasco da salvação, um spray, custava trezentos e cinqüenta cruzeiros cada. Suely pediu dois.

– São sete mil e quinhentos cruzeiros, madama – anunciou o galego da farmácia, entregando o embrulho.

– Sete mil e quinhentos? – estranhou Suely. “Então, não quero.”

O boticário concordou:

– A senhora tem razão. Afinal esses mosquitos não estão com essa bola toda não.


Nas imediações da Avenida da Liberdade, em Lisboa, há uma praça com um extenso gramado extremamente bem cuidado, em cujo centro eleva-se um pedestal de granito onde está afixada uma pequena placa de bronze. Não há busto, escultura, lampião ou qualquer enfeite. Apenas a placa.

Curioso, o escritor e jornalista Ivan Lessa foi ver do que se tratava. Leu, escrito na plaqueta, letras miúdas:

“Vossa Excelência está a pisar ao relvado. Favor retirar-se.”

O jornalista Zevi Ghivelder estava na fila da aduana de Nova York aguardando a vez de exibir sua bagagem à curiosidade do Inspetor aduaneiro e seu cão cafungador, policiais ambos.

Na sua frente, já sendo examinadas, duas bichinhas nordestinas, mirradinhas, bem mirradinhas, miudinhas, claramente debutantes de primeira viagem, expunham seus vestidinhos e atavios ao gigantesco oficial americano, um lourão quilométrico com a força e o comportamento de um animal de tração, os olhos azuis, ávidos, cravados na exótica bagagem dos visitantes.

Uma das gay-flowers da caatinga levava na mão, com o maor zelo, um embrulhinho caprichadíssimo, cor-de-rosa, claramente contendo um presente, preparado com cuidado de mamã.

O Inspetor da Alfândega, com a elegância própria dos Inspetores de Alfândega, tirou o pacotinho da miudinha, meteu o dedão no papel, arruinou o embrulho e, depois de verificar o conteúdo, devolveu-o.

A pobre, com os escombros do gift nas mãos, gemeu para a companheira:

– Olha só o que esse caipira fez comigo!

Em 1918, a Câmara Municipal de Aracati declarou guerra à Alemanha, antecipando-se ao Governo Federal.

Na Segunda Grande Guerra, Getúlio passou na frente e dessa vez a declaração de beligerância partiu do chefe da Nação.

Quando terminou o conflito, a Luneta, jornal de Aracati, começou assim seu editorial:

“Nós bem que advertimos o senhor Adolfo Hitler...”

Chamava-se Madame Aptibol e era uma cartomante recomendadíssima, dessas que até dispensam panfletagem de rua. Sérgio Bernardes marcou hora para ele e para Gauss Estelita, também arquiteto.

Bernardes entrou primeiro na tenda luso-arábica montada num quarto de apartamento no Flamengo e, antes que a vidente visse e previsse qualquer coisa nas linhas de sua mão, propôs:

– Em vez dos quinhentos mangos da consulta, pago mil. A senhora tem que dizer sério pro meu amigo que vai entrar depois de mim o seguinte: o senhor não tem passado, não tem presente, não tem futuro.

Dito e feito, ou melhor, feito e dito.


Revoada de autógrafos. Escritores cariocas ou acariocados em Belo Horizonte. Todos lá: Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, José Carlos de Oliveira e Rubem Braga, representando a Editora Sabiá. Defendendo as cores da Civilização Brasileira estavam Marcito Moreira Alves, Otto Maria Carpeaux e Carlos Heitor Cony.

A maior parte foi de avião. Cony, no entanto, preferiu ir dirigindo o seu inefável Simca Chambord, levando o Carpeaux (que era gaguíssimo), enfrentando uma viagem, naquele tempo longa, penosa e extremamente desconfortável.

Quando chegaram, horas depois dos outros, todos quiseram saber como tinha sido a aventura.

– Foi tudo bem – respondeu Cony. “Só que o Carpeaux levou de Juiz de Fora, ali por Benfica, até Conselheiro Lafayette para pronunciar Kierkegaard”.

Mais de oito quilômetros.

Wednesday, January 31, 2007

O falecido escrivão juramentado Hugo Leão de Castro, identificável na igualmente falecida Ipanema apenas como Hugo Bidê, era um inveterado boêmio e um doce vagabundo.

Lá, um dia, sofreu um insulto hepático e foi garantir a sobrevida do fígado e dos bares locais com um médico desconhecido, mas muito recomendado.

Hugo cumpriuà risca a primeira missa terapêutica: nu, obediente, humilhado, apreensivo e diminuído diante do doutor, uma saudável e eteran excelência.

Respondeu com educação e firmeza a todas as perguntas do facultativo que, ao contrário do ponto, infelizmente não o é. E disse a idade, contou as doenças infantis, discorreu sobre a biografia médico-familiar, negou doenças infectocontagiosas (omitiu uma remota gonorréia).

O médico, cabeça baixa, curvado sobre uma ficha, ia tomando nota mecanicamente, sem um comentário, um olhar, uma humanidade. A última pergunta antes da sentença:

– O senhor bebe?

Resposta meio hesitante do Hugo:

– Socialmente...

O esculápio, moldado à americana, aparentemente ultrapassou o tempo necessário para escrever “socialmente”.

O Hugo, com medo do flagrante, acrescentou com humildade:

– É que eu tenho muitos amigos...


Em 1955, Raul Mascarenhas já era um dos pianistas do Beco das Garrafas, em Copacabana, onde acompanhava a cantora e compositora Dolores Duran, com quem trabalharia até a morte dela, em 1959.

No ano seguinte, ele começou a acompanhar a cantora Helena de Lima e passou a compor canções como "Estátua do Estácio de Sá" e "Verdade da vida", esta em parceria com Concessa Colaço.

A convite de Carmelia Alves e Jymmi Lester viajou durante seis meses pela Europa até a Rússia. Voltaria a Europa outras vezes, apresentando-se em diversas cidades, na década de 1960.

Em 1963, seu samba-canção "Verdade da vida", com Condessa Lacerda foi gravado por Helena de Lima no LP "Quando a saudade chegar" e relançado no ano seguinte pela mesma cantora no LP "Uma noite no cangaceiro".

A partir de 1970, tornou-se pianista do bar do Country Club, no Rio de Janeiro, onde participou de memoráveis e reservados shows na companhia do cantor Mario Reis, seu amigo pessoal e notório freqüentador daquele tradicional reduto da alta sociedade carioca.

De suas apresentações no Country Club, onde tocou durante dezessete anos, nasceu o disco ao vivo "O Piano Bar", no qual é acompanhado pelo contrabaixista Muchika.

Ao longo de sua carreira, gravou dezenas de músicas, entre as quais "Minha namorada", de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, "Nossos Momentos", de Haroldo Barbosa e Luís Reis", "Travessia", de Milton Nascimento e Fernando Brant, "Sem mais adeus", de Francis Hime e Vinicius de Moraes, "Wave", de Antônio Carlos Jobim", "Por causa de você", de Antônio Carlos Jobim e Dolores Duran, além de sucessos internacionais como "The lady is a tramp", da dupla Hart-Hodgers.

Marido da cantora Carminha Mascarenhas e pai do saxofonista Raul Mascarenhas (foto), Raul Mascarenhas um dia encontrou o poeta Paulinho Mendes Campos no Antonio's e começou a lhe contar um pesadelo que tivera na noite anterior e que o deixara assustado:

– Saí do Country às quatro horas da manhã, peguei um ônibus na porta para ir pra casa. O ônibus, em vez de me deixar na Praça Antero de Quental, virou à direita e seguiu pela Lagoa, em direção a Botafogo. Na Rua General Polidoro, o motorista parou em frente ao Cemitério São João Batista, que estava com as portas abertas. Foi quando os passageiros começaram a descer. Eu conhecia todos e cumprimentei-os um a um: Pixinguinha, Ari Barroso, Agostinho dos Santos, Carmen Miranda, Donga, Cartola, Heitor dos Prazeres, Vinicius, Antonio Maria, todo mundo. Aí, o chofer mandou que eu saísse também, ele próprio desceu e entramos todos no cemitério.

Interpretação gravíssima do Paulinho:

– Esse seu sonho não tem nada a ver com morte. Você está é ficando broxa.
Ziraldo era editor da antiga Desfile, uma espécie de revista ajornalada, coloridíssima, publicação da Bloch que teve vida curta e bastante agitada.

Telefonema de Ziraldo para Otto Lara Resende: precisava de quatro laudas para o dia seguinte, um inenarrável sacrifício recusado pelo Otto. De jeito nenhum. Mas tantas Ziraldo fez, tanto implorou, eram as tais laudas ou seu emprego, a miséria, a anemia dos meninos, as ruínas do lar que, diante do quadro dramático, o Otto topou.

Dia seguinte, Ziraldo recebe, em vez de quatro, seis laudas do Otto, acompanhada de um bilhete do escritor:

“Sinto muito. O tempo era muito curto para quatro laudas.”


Não há nada mais desesperador que noite de autógrafos para o autor do livro a ser lançado. Na hora da dedicatória, esquece-se até de nome de filho, de mãe, de pai, de parente próximo, o que dirá de amigo.

O deputado Sebastião Nery, em campanha eleitoral, lançava livro na Cinelândia e naturalmente sua assinatura era muito disputada por correligionários, eleitores, amigos velhos e novos e o povo em geral.

Durante a provação, a memória massacrada, surge-lhe na frente um cavalheiro tonitruante, grandalhão, acompanhado de mulher e filhos e, em voz alta, desafia:

– Se não me disser meu nome, perde meu voto e destes todos aqui!

A vida é muito misteriosa. No tumulto indescritível da grande esplanada da Cinelândia, abriu-se uma clareira de luz nas bilhões de lembranças do Nery e emergiu, cristalino, o nome do homem:

– Claro que sei! Hélio Gábolo Pinto Coelho, meu dirigente sindical predileto e ainda por cima baiano!

Cinco votos.

Ainda Sebastião Nery, ainda a mesma noite, ainda a Cinelândia. Uma das compradoras do livro, moça desconhecida, apresentou-se para o autógrafo.

– Qual o seu nome, minha filha? – perguntou o escritor.

– Michelle.

Parece que se arrependeu, pois curvou-se e sussurou no ouvido de Nery:

– Olha, Michelle é nome de guerra. Eu me chamo mesmo é Sebastiana.

Dedicatória:

“Querida Michelle. Ajude seu xará.”
O magistrado Orosimbo Nonato da Silva (1891-1974), mineiro de Sabará, chegou a presidente do Supremo Tribunal Federal, cargo que desocupou por força de aposentadoria.

É sabido o amor que os magistrados dedicam a palavras engalanadas, de penacho, plumas e egretes, mas o Dr. Orosimbo exagerava ao pinçar espécies exóticas no seu mundo vocabular: “o recurso não encontra amparo nas lindes angustas do hábeas corpus”.

Dizia-se que a versão do ilustre jurisconsulto para os versos “que me importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar” seria:

“Pouco se me dá que a onagra claudique, o que me apraz é acicatá-la.”


Quando Magalhães Pinto era o ministro das Relações Exteriores do governo Costa e Silva, recebeu um memorando da Presidência da República nos seguintes termos:

Assunto: Vinicius de Moraes.

Demita-se este vagabundo.

Ass. Artur da Costa e Silva

O poetinha, que trabalhava como cônsul em Los Angeles, foi demitido. Costa e Silva sofreu um derrame, ficou inválido e foi apeado do poder por uma Junta Militar. Deus castiga.

No dia 13 de setembro de 2006, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) enviou telegrama de congratulações ao Chancelar Celso Amorim, pela iniciativa de conferir a Vinicius de Moraes, post-mortem, o título de embaixador e batizar uma ala do Itamaraty com seu nome.

O texto teve o seguinte teor:

“A Associação Brasileira de Imprensa congratula-se com Vossa Excelência e sua equipe pela iniciativa de conferir postumamente a Vinicius de Moraes o cargo e o título de embaixador e de dar o seu nome honrado a uma ala do Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro.

Além de diplomata, poeta, compositor e teatrólogo, Vinicius atuou no jornalismo como crítico de cinema, no começo de sua fecunda aventura intelectual e artística, e como cronista do jornal Última Hora, nos anos 50, a convite de Samuel Wainer.

A justiça que se faz a Vinicius, 38 anos após sua danação com base no Ato Institucional n.º 5, enche de alegria e emoção os jornalistas que acompanharam sua luminosa trajetória na vida nacional.

Cordialmente, Maurício Azêdo, Presidente da ABI."

Morreu nos Estados Unidos um cidadão de Florianópolis e a família despachou o finado para as exéquias a serem procedidas em santa Catarina, destino e repouso final do ex-brasileiro.

Depois de uma confortável e repousante viagem, o morto aterissa em Florianópolis, onde, tristemente, a família o espera para as boas-vindas. O funcionário da Alfândega empombou:

– Só entra o defunto, o caixão não pode. É contrabando.

Não houve meio. O caixão não entrava. A família pranteada foi consultar um advogado, que resolveu o caso como só os advogados sabem fazer.

Levou padre, flores, coroas, amigos e a família para a Alfândega e lá mesmo encomendou o corpo, retirando-se em seguida, deixando lá as marcas do velório e o defunto de corpo presente.

O funcionário, desesperado, deixou passar o contrabando.
Numa das inúmeras fazendas de um dos inúmeros Matarazzos, o dono e senhor cavalgava, sol a pino, para curtir o seu barato, aliás, caríssimo: gado, cavalos, pastagens verdejantes, cafezais e outras micharias.

Num dado momento, a alimária relinchou sem motivo justo aparente.

O cavalgante então reparou, na margem da estrada que percorria, um casal de colonos – um homem e uma mulher – um sobre o outro. Cobertura rural.

O colono, sem se desapontar com o flagrante, ofereceu, como fazem os peões com a marmita:

– O senhor está servido, doutor?
Conversavam: o jornalista, escritor e deputado Sebastião Nery e o então governador de Minas e dono do Banco Nacional, o Dr. Magalhães Pinto. Pergunta-lhe o Nery:

– Como o senhor conseguiu ficar tão rico, governador?

– Guardando, meu filho, guardando.

Nery não resistiu:

– De quem, governador?
A alta nobreza plutocrática americana prefere o Lyford Cay Club, em New Providence Island, nas Bahamas, ao Country Club no Rio de Janeiro. Explica-se o aparentemente inexplicável: o Lyford Cay (pronuncia-se Key) Club ocupa a metade da ilha onde está instalada Nassau, capital do Arquipélago formado por setecentas ilhas e dois mil arrecifes coralinos, e é considerado o que se chama de Profict Sanctuary, ou seja, um Santuário fora do alcance do Income Tax, o leão do Imposto de Renda de lá, que, comparado, faz do nosso felino um gato de armazém.

No Lyford não circula dinheiro de nenhuma espécie, os sócios não assinam nota, não dão gorjeta, não levam aqueles colares com continhas monetárias. Simplesmente, no fim do ano, faz-se as contas de quanto foi gasto por todos e divide-se o bolo em partes iguais entre os sócios. Nunca dá menos de um milhão de dólares per capita, o que evidentemente é uma pechincha ridícula, sobretudo considerando as famílias que freqüentam este paraíso tropical: os Mellon, os Rothschild, os Niarchos, os Onassis, para citar apenas alguns.

Solamente dois brasileiros foram admitidos como sócios pelo paraíso tropical onde se localizam Florestas Negras, Taj-Mahals, Tulherias, Thermas de Caracalla, Bois de Boulogne e tudo que apenas os olhos dos associados e felizes convidados podem ver, pois é proibido entrar máquinas de filmar ou fotografar e se um helicóptero se aventurar no espaço aéreo do Lyford será abatido a míssil. Os brasileiros: Joaquim Monteiro de Carvalho (Volkswagen) e José Carlos Laport (negócios com a Petrobrás), ambos miliardários.

Conta-se, a propósito do sr. Laport, um episódio curioso e que dá bem a medida de quem são os coroados do Lyford Cay Club. O sr. Laport tem o seu centro operacional em Houston, no Texas, e como é obrigado a freqüentar o seu bar predileto em New Providence, mantém lá um sócio, o sr. Newton Lins, que o substitui nas negociações com a Petrobrás durante suas ausências.

Certa ocasião, Newton Lins comprou um Rolls-Royce rigorosamente inacreditável até para um aurífero morador de cobertura na Vieira Souto: um camargue branco, refulgente, triunfante, de embasbacar Harun-al-Rahchid, vivo fora. Para exibir o tesouro abissínico, Newton foi buscar o sócio no aeroporto, em Houston.

Laport chegou, acomodou a bagagem, acomodou-se e foi direto aos assuntos: money, money, money. Nenhum comentário sobre a maravilha britânica.

Frustradíssimo e inconformado com o insucesso do seu transatlântico, Newton, afetando voz passiva, arriscou, indiferente:

– Já tinhas andado num desses, Laport?

Laport:

– Na frente, nunca.

Wednesday, January 17, 2007



Numa daquelas reportagens engraçadinhas, de que a televisão é mestra, a repórter perguntou a Jaguar como se sentia ele tendo nascido num dia 29 de fevereiro. Resposta, de bate-pronto: “Muito bem. Como só faço aniversário de quatro em quatro anos, tenho, agora, 16. O que, aliás, corresponde à minha idade mental”. E deu uma gargalhada.

Foi há algum tempo. Jaguar vai fazer 75 anos. Nasceu em 1932 – e, como todo bom ipanemense, não nasceu em Ipanema, mas na Praça da Cruz Vermelha, no centro carioca. No bar onde conversou com o repórter, falava-se sobre a prisão do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto. “Eu iria para a cela comum”, Jaguar diz logo. Não tem curso universitário. “Quem tem é o Ziraldo, que, antecipando o que poderia vir a acontecer, formou-se em advocacia”, brinca.

Durante boa parte da vida, Jaguar foi funcionário do Banco do Brasil. Fundou e dirigiu jornais humorísticos (do Pasquim a revista Bundas), desenhou sem parar, a vida inteira, apresentou programa de televisão (na TVE do Rio), foi diretor de redação de um diário carioca (A Notícia), capitaneava, com outros históricos boêmios, a Banda de Ipanema – e virou memorialista.

“O único memorialista desmemoriado do mundo”, diz, antes que alguém o diga. Há alguns anos, lançou dois livros de uma só vez: Ipanema, da editora Relume-Dumará, e Confesso Que Bebi, pela Record. “O título deste último é plágio do Confesso Que Vivi, de Neruda", diz.

“Acho um absurdo publicar dois livros ao mesmo tempo – você sabe que Buenos Aires tem mais livrarias do que o Brasil inteiro?”, pergunta. Confesso Que Bebi é uma seleção dos artigos que ele escreveu para o jornal O Dia, do Rio. “É um guia dos bares em que eu bebi”, explica o autor. “É dedicado a umas 380 pessoas que fui encontrando nesses bares”, conta.

A epígrafe é de Millôr: Deve-se beber com moderação, independentemente da quantidade. E, já que o assunto são frases alheias, Jaguar aproveita para fazer justiça histórica: “Atribui-se ao Jânio Quadros uma frase que é minha, aquela que diz que bebo por que é líquido; se fosse sólido, eu comia – ou comê-lo-ia?”.

Mais um pouquinho de Confesso Que Bebi: é dedicado às tais 380 pessoas (ou mais), apresentadas como aqueles que ajudaram a tornar esse mundo menos chato e a Jesus Cristo, que transformou água em vinho. Sobre a passagem bíblica, Jaguar imagina a reação daqueles chamados eternos insatisfeitos – por que não descolou uns queijinhos, também, para beliscar?

O livro de memórias Ipanema já está esgotado e hoje é item de colecionador. Para lançar Confesso Que Bebi, Jaguar teve uma idéia digna dele: “Bolei um sistema que pode me ser fatal. Vou fazer lançamentos relâmpagos nos 30 ou 40 bares citados. Num dado momento, entra um cara vestido de escocês, tocando um sino, e eu vou para outro boteco”. Haja fígado.

De bar em bar, Jaguar quer também que sejam espalhadas as suas cinzas. “Decidi ser cremado, contra essa coisa medieval do velório, um massacre. Mas é difícil. Você tem de ir à Santa Casa de Misericórdia, preencher formulário, arranjar três executores, registrar em cartório... Em todo caso, vai faltar cinza. Vou providenciar, legalmente, que seja cremado comigo um pangaré, para inteirar e sobrar pra todos os bares. Pena que vou perder essa festa”.

Mas que ninguém se preocupe. Jaguar não está pensando em morrer – anda é muito feliz da vida. Está até conseguindo catalogar seus desenhos, os mais recentes. Porque a obra, iniciada há 51 anos, está espalhada pelas dezenas de publicações em que trabalhou. “Sou o único chargista brasileiro em atividade desde 1955, que nunca parou de desenhar”, diz. “E, como jamais entrei nessa de carteira assinada, não posso tirar férias. Desde 1955, não tive um dia de férias.”

Jaguar imagina que tenha publicado uns 30 mil desenhos – sem contar vinhetinhas, desenhos menores que ilustravam, por exemplo, a seção Dicas, do Pasquim –, dos quais tem guardados os originais de uns 50. Criou milhares de personagens e os abandonou a todos. “Não tenho saco para personagens, não tenho paciência para história em quadrinho – embora seja o que dá grana–, que detesto, acho uma burrice, gênero menor, porcaria pura.”

Mas ele chegou a fazer quadrinhos. Os Chopinics, por exemplo, cujas histórias saíam no Pasquim. Chopinic é uma combinação de beatnik com chope. A tira foi encomendada pela agência de publicidade que fazia campanha para uma marca de cerveja. Os personagens da tira marcaram os anos 60 e 70. À frente da galeria de personagens estava Hugo Bidê (ou o Capitão Ipanema) e seu eterno companheiro, o rato Sigmund Freud, apud Sig.

Herói e inspirador – coisas que detesta – de todos os chargistas brasileiros surgidos a partir dos anos 60, de Cássio Loredano a Angeli, Jaguar é também um escritor de texto delicioso. Não quer ser herói nem inspirador, mas isso independe dele, que, se não é modesto, é o único a não enxergar que é ele o verdadeiro Capitão Ipanema.


Ator cinematográfico (estreou em "O Mundo de Helô", 1967), um dos criadores da Banda de Ipanema e da Feira Hippie de Ipanema, personagem do cartunista Jaguar (o Capitão Ipanema com o ratinho Sigmund), Hugo Bidê, que nas horas vagas trabalhava como oficial de um cartório, foi um personagem emblemático do Rio de Janeiro.

No filme "Pra Quem Fica, Tchau!" (1970), segunda tentativa de Reginaldo Farias na direção (a primeira foi em 1969, com “Os Paqueras”), o cineasta voltou a explorar uma recorrência do tema de seu filme de estréia e convidou Bidê para fazer uma “ponta”.

A história mostrava as bobajadas de sempre das pornochanchadas metidas a crítica de costumes com verniz intelectualóide. Jovem chegado do interior, Lui (Stepan Nercessian) vai morar com o primo boa-vida em Ipanema, Didi (o próprio Reginaldo), que tem amigos da "estirpe" de Flávio Migliaccio e Hugo Bidê, com quem passa a se divertir e realizar importantíssima atividade: cantar e carcar o maior número de mulheres nas ruas de Ipanema e Copacabana.Claro, não demora Lui se apaixona por uma das paqueras, a deslumbrante Maria (Rosana Tapajós), e, no esquema de qualquer trama romântica, a coisa evolui entre tropeços e acertos, festas psicodélicas e bodes homéricos.

O minúsculo apartamento de Didi é um santuário da perdição. No entra e sai de garotas de minissaia e blusas coloridas, fica claro que se a vida é só uma, aqueles meninos já tinham descoberto o que fazer de bom com ela.Stepan Nercessian, que vinha de "Marcelo Zona Sul" e aos 16 anos crescia rápido, não só em tamanho mas em competência profissional, encontra no papel de mineiro deslumbrado uma proximidade com sua realidade de garoto criado no interior de Goiás.

Reginaldo Faria e Flávio Migliaccio, rapazes mais crescidos, faziam ali uma espécie de transição para a idade adulta, enquanto Hugo Bidê se limitava a ser apenas Hugo Bidê.Este último, aliás, quase sempre visto como personagem, ao invés de ator, trabalhou em mais de duas dezenas de filmes, ainda que fazendo papéis parecidos.

Figura folclórica de Ipanema, malandro até dizer chega, Bidê deve ter antecipado o fim daquela era “paz & amor” no dia 11 de abril de 1977, quando no seu apartamento ipanemense, na rua Jangadeiros, deu um tiro na cabeça, limitando aos filmes e livros o prazer que proporcionava ao mundo com sua presença.

Antes, porém, vamos ao seu apelido: o que se sabe é que Hugo deu uma feijoada em casa e, na falta de uma caçarola de barro, serviu-a aos convidados num bidê – um bidê virgem, recém-deslacrado, mas que nem por isso deixava de ser bidê, e a partir daquele dia também não deixou de fazer parte de seu sobrenome artístico.

Hugo Bidê tinha por companhia não-humana um “humanizado” (por ele) ratinho branco, um hamster tipo cobaia de laboratório, que ele carregava no bolso ou no ombro para passear, cujo nome era “Ivan Lessa”, tratado como igual por todos os companheiros de copo, até por ser mais um de seus pares – Ivan bebia Genebra embebida em miolo de pão.

Numa noite qualquer, a turma – que muda de relato para relato, todos narrados por Jaguar, talvez o único sobrevivente – ficou enchendo a cara no Jangadeiro até o bar fechar. Depois foi tomar a penúltima no apartamento do Hugo Bidê, que ficava ali perto.

O rato ficou zanzando no parapeito, até que pluft!, caiu pela janela. Alguém notou e a mesa saiu em desabalada carreira até o térreo, resgataram o roedor e levaram, em prantos e às pressas ao Hospital Miguel Couto.

Chegando lá, nenhum médico quis atender-lhes. Com razão, aliás. Não se deram por vencidos e saíram na porrada com os homens de branco, acabando por encontrar o rato morto na confusão.

Hugo Bidê inspirou Jaguar na criação do personagem Capitão Ipanema na tira dos Chopniks, enquanto “Ivan Lessa” virou Sigmund Freud, ou simplesmente Sig, o Mickey Mouse do Pasquim. Algumas tiras dos Chopniks tinham argumento do Ivan Lessa, o outro, o escritor, que não as assinava por vergonha de escrever quadrinhos. Mas isso é outra história.


Desde que Ruy Castro introduziu a figura de Roniquito como um dos verbetes de sua obra sobre Ipanema (Ela é Carioca: uma Enciclopédia sobre Ipanema. Companhia das Letras, São Paulo: 1999) a curiosidade sobre a sua vida ficou aguçada. Porém sua irmã, a jornalista Scarlet Moon, pioneira do Jornal Hoje da Rede Globo, agora vem preencher essa lacuna com o lançamento da biografia de Roniquito.

Inteligente, irônico e mordaz, Roniquito é personagem de um tempo áureo do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da Banda de Ipanema, participou da criação da Rede Globo de Televisão e, acima de tudo, protagonizou casos antológicos e histórias do folclore ipanemense. Quando estava sóbrio, era bem-educado e tímido. Depois do primeiro drinque, porém, virava o cão, e coitado de quem pintasse em sua frente.

“Dr. Roni & Mr. Quito” da jornalista Scarlet Moon de Chevalier, irmã do indigitado, conta de forma saborosa, engraçada e tocante a existência peculiar do legendário Roniquito e de suas duas personalidades opostas e imprevisíveis. Erudito, controverso, crítico iconoclasta, carismático, sedutor apaixonado, o Roniquito era capaz de despertar nos amigos e inimigos os sentimentos mais contraditórios em breve espaço de tempo.Personagem lendário do Rio, o economista e boêmio Ronald Russel Wallace de Chevalier é lembrado por sua irmã Scarlet Moon nessa obra, que agora se indica para leitura.

A jornalista Scarlet Moon de Chevalier chama atenção até pelo nome, que Caetano Veloso declara adorar, no rap Língua. Mas ela acha que famoso na família era seu irmão, Ronald Russel Wallace de Chevalier, o Roniquito, personagem de muitas histórias e lendas de Ipanema nos anos 60 e 70. Ele viveu pouco e, apesar do muito que aprontou (ou talvez por isso), deixou muitos amigos, famosos (como a cantora Nana Caymmi, o jornalista e escritor Sérgio Cabral e o ator Hugo Carvana) ou absolutamente anônimos. Para desvendar o personagem, Scarlet acaba de lançar Dr. Roni e Mr. Quito: A Vida do Amado e Temido Boêmio de Ipanema (Ediouro, 252 páginas), uma biografia que não tenta purificar o personagem e conta sua intimidade como só uma irmã teria condições de fazer.

O título remete ao personagem de O Médico e o Monstro, clássico da literatura inglesa, que de dia era um pacato e respeitado doutor e à noite virava um devasso e perverso boêmio. Scarlet lembra que Roniquito, como todo mundo o conhecia desde a infância, tinha esses dois lados. De dia, sóbrio, era o economista brilhante, ex-aluno e assessor de Mário Henrique Simonsen ou de Walter Clark na Rede Globo. À noite, depois da primeira dose de uísque (e até esvaziar garrafas) era brigão, provocador que dava uma boiada para entrar na confusão e, temerário, não escolhia adversários, embora fosse franzino e pouco hábil na luta física.

“O Sérgio Cabral conta que ele aprontava horrores no ZiCartola (restaurante de Cartola e Dona Zica, no centro da cidade, onde aconteceram shows seminais nos anos 60), mas a mulher dele, Magali, nunca acreditava. Ela o encontrava na praia, antes de ele começar a beber e, sóbrio, meu irmão era um lorde”, conta Scarlet. Ela decidiu escrever quando um taxista reconheceu-a e contou ter sido garçom do Antônio’s (outro bar lendário, mas do Leblon) e devia sua atual prosperidade a Roniquito que, inteirado das mumunhas do poder, lhe dera dicas de como e onde investir suas parcas economias. “Vi que ele era pouco conhecido além do folclore daquela época. Queria que a filha dele, Adriana Chevalier, que é roteirista do programa Sob Nova Direção, da Globo, escrevesse, mas ela me lembrou que a vontade era minha e cabia a mim contar a história.”

Foram dez anos de entrevistas com amigos do irmão, 13 anos mais velho e ciumento da caçula da família, e muitas idas à Biblioteca Nacional para pesquisar os jornais da época, porque Scarlet não se atém nas histórias de sua família, dá um painel da época, de como as coisas aconteciam num passado utópico em que havia uma ditadura, mas as pessoas insistiam em criar e em ser felizes, embora nem sempre fosse possível realizar os dois projetos. Ela não doura a pílula, pois conta que o irmão, alcoólatra que chegou a um estado terminal, levou a cabo três casamentos por não suportar a rotina das pessoas comuns, e sabia ser perverso e destruidor. “No entanto, quando fui conversar com seus filhos, cada um contou uma história mais comovente da convivência com o pai”, lembra Scarlet. “Isso se repetiu várias vezes e, mesmo com toda a convivência, me supreendi com o que descobri de sua vida.”

No livro, Scarlet conta, pela primeira vez em público, o episódio de sua prisão por porte de droga, em meados dos anos 70, segundo ela, involuntariamente por culpa do irmão. É o momento mais comovente do livro, pois passar três meses num presídio mudou sua vida e rompeu uma ligação que havia entre os dois. Na época, ainda sob o impacto da raiva e da mágoa, ela escreveu uma carta ao irmão, que nunca respondeu ou falou do assunto. “Só quando eu fui escrever o livro, minha outra irmã, Bárbara, que havia arrumado as coisas de Roniquito após a morte dele, me entregou a carta. Ele a guardara por mais de cinco anos, sinal de que ficara tocado”, diz. “Hoje, relendo aquela carta, me sinto moralista, como se quisesse ensinar a ele como viver.”

Roniquito viveu pouco. Nasceu em 1937 em Manaus, o segundo de uma família tradicional, e morreu no Rio em 1983, das seqüelas de um atropelamento que sofrera poucos anos antes. No auge de Ipanema, ele era um personagem das noitadas e das festas, conviveu intimamente com metade dos intelectuais e artistas que marcaram a vida brasileira na época. Não só os já citados Carvana, Nana, Simonsen e Walter Clark (de quem era amigo de infância, e que o levou a inventar a palavra ASPONE (assessor de porra nenhuma) para definir um assessor que não faz nada, vivia nos bares com Chico Buarque, Tom Jobim, Leila Diniz e Vinícius de Moraes e muitos outros que fazem parte da lenda de Ipanema e do Rio na época da ditadura militar e do desbunde. Roniquito lutou bravamente contra a primeira (como consta no episódio em que desancou o presidente Costa e Silva no Museu de Arte Moderna) e foi com tudo no segundo. Pagou alto a conta de viver como se cada dia fosse o último.

Embora seja personagem dessa biografia, Scarlet quase não aparece no livro e suas histórias só estão lá quando explicam o irmão. E olha que ela tem casos para contar. Foi modelo aos 14 anos, quando nenhuma menina ainda sonhava com essa profissão, uma das fundadoras do Jornal Hoje, da Globo, e, durante quase três décadas, musa e mulher do roqueiro Lulu Santos, que sempre destacou a influência dela em sua música. “Eu não queria falar de mim e sim de Roniquito e de seu tempo”, justifica. “Agora, o meu analista quer que eu escreva a minha história. Estou pensando no assunto.”

Segundo conta Ruy Castro, no livro “Ela é Carioca”, o economista Roniquito de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon (leia-se sra. Lulu Santos), foi o verdadeiro inventor da palavra aspone. Algumas das peripécias do estrambelhado economista são mostradas a seguir, no texto sempre ágil e saboroso de Ruy Castro:

Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!"

Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça. Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximaria de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e diria alguma coisa tão ofensiva que faria o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.

Era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e agüentou firme. Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe:"Chega ou quer mais?". E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: "Cansou, filho da puta?".

Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa. Umas dessas foi o cronista Antonio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle's Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão. Para ele, homem de televisão era seu amigo Walter Clark, então diretor comercial da TV Rio e que estava calado na mesa, temendo o pior. Roniquito ofendia Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o "Sirica", também sentado com eles. Maria aguentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: "Antonio Maria, você foi parido por um ânus!". Ao ouvir isso, Maria viu vermelho e atirou-se enfurecido sobre Roniquito, Walter e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por "Sirica" e mais uns dez.

Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10. A primeira frase de Roniquito para Walter foi: "Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre...". Nunca mais se separaram. Nos anos 60 Walter contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral. Quando Walter saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da Globo a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista. Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por Carlinhos de Oliveira: "Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma". A palavra, consagrada nacionalmente, ainda não chegou ao Aurélio.

Mas não era bem assim. Na própria Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um aspone. Numa época de crise, por exemplo, ajudara a equacionar uma pesada dívida da Globo para com a Receita Federal. Era um economista brilhante, ex-aluno de Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen e fora o orador da sua turma (da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares). Em fins dos anos 50, saíra da faculdade para um emprego na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser ministro do Planejamento do governo Geisel - e sendo derrotado por ele no xadrez. Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação.

E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faukner. Suas estantes era impecáveis, com os livros organizados por assunto, todos sempre à mão. Em música era capaz de assobiar até os clássicos.

Parte dessa erudição lhe vinha de família: seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico (o Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindú). Ramayana carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier; dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, Scarlet Moon de Chevalier.

Por intermédio de Ramayana, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais. Na mesma época, para exibir Roniquito, Ramayana mandou-o imitar Rui Barbosa para Lucio Cardoso. Roniquito imitou Rui à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lucio ficou fascinado: "Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!". Muitos anos depois, Lucio deu-lhe para ler os originais de seu romance Crônica da casa assassinada e pediu-lhe sua opinião. Mas, quando Lúcio o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lucio e começou a gritar o insulto que, na sua opinião mais o ofenderia: "Faukner do Méier! Faukner do Méier!".

A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: "Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?". Fernando gaguejou: "Bem... Nelson Rodrigues, é claro". Mas Roniquito fulminou: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?". Fez pior com o suave Antonio Callado, a quem perguntou se já tinha lido Faulkner. Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. "Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta", disse Roniquito.

Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimõnia com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar. Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou: "Nem essa?". E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada.

Em outra visita de autoridades à Globo, Roniquito perguntou a Pratini de Moraes, ministro dos Transportes do governo Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: "Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo".

De outra feita, no governo Geisel, quando Roniquito conversava com o seu amigo, o ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: "Não estou falando com fabricante de lençóis".

Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção - Walter era o contrário.

Mas a maior sem-cerimômia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história muito bem contada por Ferdy Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do governo, a pedido de Nascimento Silva. Naquela manhã ele levara o visitante a almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna. Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques - muitos uísques, porque o americano não enjeitava o serviço.

Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no MAM para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro. Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: "O senhor tem fogo?".

Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como "Whatthegoddamfuckdoyouthinkyouredoin'" e foi também abotoado.

Os dois foram levados para o 3º Distrito, na rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa:"I'm an American shitizen! Call the embashy!". O delegado perguntou: "Quê que o gringo tá falando?". "Ele tá dizendo que a polícia no Brasil é uma merda" traduziu Roniquito. "Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!", bramiu o delegado.

O americano pediu para usar o telefone. Roniquito traduziu: "Ele está dizendo que no Brasil ninguém respeita os direitos humanos". "Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!", ganiu o delegado. O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo. Roniquito sussurrou para o delegado: "Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura facista".

Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo. Mas, por causa de Roniquito, conclui Ferdy, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos - tendo como pivô um palito de fósforo. Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, sequestrado em 1970.

Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar. A poção que o fazia passar de Dr. Jekyll a Mr. Hyde (ou de Dr. Roni a Mr. Quito, segundo Marcos de Vasconcelos) vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto. Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia o seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá.

Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, "A palavra é...". No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando. A dona da casa achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: "Roniquito, a palavra é...". E Roniquito, meio zonzo de sono:"Ca-ra-lho". Naturalmente, foi expulso pelo filho da dona da casa.

Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era a sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical. Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os "caminhos da democracia no Brasil". Propunham "estratégias de ação". Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: "Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?". O debate acabou ali.

Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio's. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Miguel Couto. Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio's e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: "O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?".

Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve seqüelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982. Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber - mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça. Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, "Tomando café, Roniquito?", respondeu: "Estou. Irish cofee" (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca.

Quando teve o enfarte fatal, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois. Foi enterrado com o pé no gesso e de olhos abertos. O anúncio da sua morte no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava".

E Paulo Francis escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo: "Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que 'análises' ou'contramodelos'. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava".

Thursday, January 11, 2007


O cantor e compositor João Nogueira estava se apresentando em Belém do Pará e resolveu dar uma volta no tradicional mercado Ver-o-peso, onde se compra de pirarucu seco e açaí feito na hora a artesanato nativo e ervas medicinais pra curar tudo.

Queixando-se de uns “probleminhas” de saúde, o sambista procurou uma daquelas barracas especializadas em plantas, raízes e garrafadas, acompanhado do sobrinho e empresário Didu Nogueira.

Amado e conhecido no Brasil inteiro, João foi reconhecido pelo caboclo do balcão e começou logo a fazer os pedidos:

– Meu camarada, qual é a folha boa para tratar diabetes?

– Essa aqui, a pata-de-vaca! – respondeu o paraense, de primeira.

– E pra circulação?

– Essa outra aqui, o jambolão. Mas tem também a unha-de-gato, a porangaba e a stevia, que substitui o açúcar, desentope tudo o que é veia e acaba com o colesterol ruim...

– E para essas coisas de estômago, esôfago, azia pós-esbórnia, o amigo tem alguma coisa?

O vendedor começou a colocar um monte de saquinhos sobre a mesa.

– É comigo mesmo! O senhor pode cozinhar essa casquinha de pau de mururé com folhas de quebra-pedra e tomar três vezes ao dia. Se preferir, faça infusão de barbatimão pra beber em jejum. Tem também carapiá. É tiro e queda! Mais alguma coisa?...

– Essa folhinha aqui serve pra quê? – perguntou João.

– Isso é espinheira santa. Serve pra espinhela caída, joanete, inflamações generalizadas, cansaço, enxaqueca. Também serve para limpar a voz. Pro senhor, então, é um santo remédio.

João Nogueira pediu também umas misturas boas pros rins, um preparado pro fígado e mais meia dúzia de cipós, mandando embrulhar tudo. Satisfeito com a venda, mas preocupado com a saúde do grande artista, o caboclo comentou baixinho com Didu:

– Arre, égua, véio! O nó-na-madeira aí tá bem ruinzinho, num tá não?...